Campos do Jordão, 10/10/2008

 

De batom e salto alto

Pedro Paulo Filho

 

O professor de educação física Leonardo Alves dos Santos contou o episódio vivido por seu irmão Nelson Alves dos Santos, apelidado de Nelson Sabiá, lá pela década de 60, quando os circos na cidade levantavam a lona em uma área livre que havia ao lado do atual restaurante “Senadinho”, de Daniel Cintra, mas do outro lado do rio. Nelson estava acompanhado de um amigo, mas juntando os trocados de ambos, não davam para comprar um ingresso. Por isso, esperaram chegar o sábado, quando havia uma promoção: mulher acompanhada não pagava. No sábado, Nelson Sabiá saiu de casa pronto: com o vestido da mãe, salto alto, lenço amarrado na cabeça, a boca pintada de batom e uma rápida maquiagem. Ficou uma mulherona meio desajeitada e saiu de braço dado com o amigo em direção ao circo. Compraram apenas um ingresso, O porteiro ficou meio desconfiado com o tamanho daquela mulher, aquele jeitão e o modo de andar diferente, mas como há mulheres de todas as alturas e larguras, deixou o casal subir a arquibancada, cujo ingresso era mais barato. Logo começou a sessão, as luzes acenderam, a banda tocou e o mestre de cerimônias foi anunciando: “Respeitável público, abrem-se as cortinas do espetáculo, apresentando-lhes o palhaço “Bolachão”“.

O palhaço entrou no picadeiro vestido de vermelho, fazendo piruetas e dando cambalhotas. Nelson Sabiá esqueceu que era mulher e começou a dar risadas tipo “Papai Noel”: “Hô, hô, hô, hô”, chamando a atenção dos assistentes e do porteiro. Os seus amigos, quando ouviram aquela mulher dar aquela risada, logo identificaram: “É o Nelson Sabiá”, e, em coro começaram a gritar “É o Nelson Sabiá”!”. O espetáculo foi interrompido enquanto o porteiro punha para fora aquela assistente perturbadora. Antigamente, onde se encontra o Parque do Cedros havia um mato fechado, com uma pequena viela acompanhando as margens do rio. Acabrunhado, Nelson, ao sair, preferiu esse caminho escuro para evitar a avenida. Não deu sorte, pois à porta do circo havia um punhado de “bebuns” que notaram aquela mulherona entrar no mato. Não deu outra, saíram atrás dela para ver quem a pegaria primeiro. Nelson andava depressa, mas a turma corria atrás. Chegou um momento que não dava mais, Nelson atirou-se dentro d’água para atravessar o rio, o pior, de vestido, batom e salto alto, a fim de livrar-se de seus mal intencionados pretendentes. Nunca mais Nelson foi ao circo.

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